QUAL TEOLOGIA É MAIS COERENTE COM O EVANGELHO DE JESUS?



Qual teologia é mais coerente com a fé pregada por Jesus: a do domínio ou a da libertação?


O deserto proposto no tempo quaresmal é o lugar da decisão fundamental. Qual caminho seguir?


Há momentos na história em que não podemos mais adiar as perguntas que exigem respostas. Nos últimos tempos, a Igreja no Brasil tem insistido em uma dessas perguntas no tempo da Quaresma. Ela nos coloca diante de uma escolha que antecede qualquer prática religiosa: em que Deus, afinal, acreditamos?


Não se trata de uma questão menor. Porque o Deus que invocamos determina o homem e a mulher que nos tornamos. Se nosso Deus é um senhor que exige submissão pelo medo, seremos súditos ou suditas acuadas ou opressores e opressoras em potencial. Se nosso Deus é um Pai que liberta pelo amor, seremos filhas e filhos na liberdade e irmãos e irmãs na caminhada.


Os dois primeiros domingos da Quaresma são, nesse sentido, um tratado de teologia em ato. No deserto, Jesus enfrenta o diabo que tenta. No monte, o mesmo Jesus revela sua glória, mas exige que não fiquemos ali!


Entre um e outro, caminha com pecadores, não para condená-los, mas para transfigurá-los. Três movimentos que respondem à pergunta essencial: qual teologia é mais coerente com a fé pregada por Jesus?


A Teologia do Domínio: o Deus que exige e separa


A teologia do domínio tem raízes antigas. Nasce da tentação original: "sereis como deuses" (Gn 3,5). Não como Deus, note-se bem, mas como deuses — rivais, concorrentes, cada um disputando seu pequeno trono.


Sua estrutura é simples: Deus é o Todo-Poderoso que impõe sua vontade pela força. O ser humano, para agradá-lo, deve tornar-se poderoso também — sobre si mesmo, sobre os outros, sobre a natureza. A religião vira instrumento de controle. A salvação, prêmio para os mais fortes, mais puros, mais obedientes.


No Evangelho das tentações, essa teologia é personificada pelo diabo. Ele oferece a Jesus exatamente isso: poder sobre os reinos, domínio sobre a natureza, espetáculo que subjuga. "Tudo isto te darei se, prostrado, me adorares" (Mt 4,9). A adoração, aqui, não é amor, mas barganha. O domínio não é serviço, mas posse. Não é fé, mas troca!


Jesus recusa. E ao recusar, revela que o Pai não é assim.


A teologia do domínio, porém, não morreu no deserto. Ela reaparece sempre que a religião se torna instrumento de exclusão. Sempre que usamos Deus para justificar nossa superioridade sobre outros. Sempre que confundimos ortodoxia com pureza, e pureza com desprezo pelos que consideramos menos puros, ou sempre que, em nome da nossa verdade, condenamos quem não pensa como nós.


Seu fruto é o que vemos numa pirâmide: no topo, os "melhores" — os mais santos, mais ortodoxos, mais fiéis, os que tem certeza. Na base, os "piores" — pecadores, duvidosos, impuros. E entre um e outro, a distância que o julgamento criou e que o amor não consegue atravessar.


A Teologia da Libertação: o Deus que caminha e transfigura


Há uma confusão criada deliberadamente por parte dos que criticam a Teologia da Libertação. Estes se dividem em dois grupos: os que criticam sem conhecê-la e os que a criticam por má-fé, atacando o que ela propõe.


É preciso cautela com a expressão "teologia da libertação", pois, para desqualificar o debate, querem reduzi-la a uma proposta político-sociológica, sem discutir sua proposta filosófica e teológica. Os críticos, detestam ser lembrados e ter que enxergar a centralidade dos pobres no Evangelho.


Falamos, então, da teologia da libertação que é o próprio Evangelho: a boa notícia de que Deus não veio para dominar, mas para libertar. Para libertar do pecado que leva à morte, do medo que paralisa e da opressão que barbariza quem pensa diferente. Assim, a nossa fé, liberta para o amor, para a fraternidade e para a vida plena, aqui na terra como é no céu.


Jesus é a encarnação dessa teologia. Ele não se agarra à sua condição divina como privilégio (Fl 2,6). Ele se esvazia, torna-se servo, lava pés. Cura no sábado, toca leprosos, come com pecadores. Não condena a adúltera, mas escreve na terra e pergunta quem atirará a primeira pedra. Não espera os discípulos de Emaús no endereço combinado, mas vai ao seu encontro na estrada da fuga e com eles caminha.


Sua teologia é a do Pai que corre para abraçar o filho pródigo antes que ele termine a confissão. Do pastor que deixa noventa e nove ovelhas para buscar uma. Do semeador que lança a semente em toda terra, sem medo de perdê-la. Jesus garante que seu fardo é leve e seu jugo é suave.


Nesta teologia, Deus não é o Todo-Poderoso que esmaga, mas é o Todo-Amoroso, como ensina Padre Junior Aquino, que se doa. Não é o juiz que separa, mas o médico que cura. Não é o senhor que exige, mas o servo que lava os pés (Ele próprio, dos seus seguidores).


Seu fruto é a comunhão. Nela, não há "melhores que o outro" — há somente "melhores para o outro", como ensinou, em sua homilia de hoje (02/03), o querido padre orionita Ricardo Paganini. Melhores para servir, melhores para amar, melhores para doar a vida. A medida não é a comparação, mas o dom. A perfeição não é a pureza sem mancha, mas a caridade sem limites.


É isso que o Papa Francisco propõe na Exortação Apostólica Evangelii Gaudium, para arrepio dos conservadores em conserva:


"…prefiro uma Igreja acidentada, ferida e enlameada por ter saído pelas estradas, a uma Igreja enferma pelo fechamento e a comodidade de se agarrar às próprias seguranças. Não quero uma Igreja preocupada com ser o centro, e que acaba presa num emaranhado de obsessões e procedimentos. Se alguma coisa nos deve santamente inquietar e preocupar a nossa consciência é que haja tantos irmãos nossos que vivem sem a força, a luz e a consolação da amizade com Jesus Cristo, sem uma comunidade de fé que os acolha, sem um horizonte de sentido e de vida. Mais do que o temor de falhar, espero que nos mova o medo de nos encerrarmos nas estruturas que nos dão uma falsa proteção, nas normas que nos transformam em juízes implacáveis, nos hábitos em que nos sentimos tranquilos, enquanto lá fora há uma multidão faminta e Jesus repete-nos sem cessar: ‘Dai-lhes vós mesmos de comer’ (Mc 6, 37)” (EG 49).


Duas teologias, duas humanidades


Vejamos, lado a lado, o que cada teologia produz. A teologia do domínio apresenta um Deus senhor que exige submissão; a da libertação, um Pai que oferece amor. A primeira sustenta a imagem de um Jesus juiz que condena pecadores; a segunda revela o Jesus servo que caminha com eles. A primeira trata a salvação como prêmio para os melhores; a segunda anuncia o amor de Deus como dom gratuito para todos. A teologia do domínio considera o pecador alguém a ser excluído; a teologia da libertação o vê como alguém a ser acolhido. Para a teologia do domínio, a religião é instrumento de controle; para a teologia da libertação, a religião deve ser espaço de abertura para alcançar a Deus.


A pergunta que a Quaresma nos dirige é, portanto, existencial: qual destas teologias molda a nossa fé?


Porque podemos dizer que cremos em Jesus e, no entanto, viver como se o Deus verdadeiro fosse o do domínio. Podemos frequentar missas, rezar o terço, jejuar na Quaresma, e ainda assim cultivar no coração a lógica da pirâmide — julgando, excluindo, comparando-nos.


A teologia do domínio é sedutora porque alimenta o ego e envaidece a pessoa. Ela nos empurra para o abismo da ilusão de que somos melhores que os outros. Pior: ela nos leva à tentação de nos autoavaliarmos como as pessoas mais certas, mais puras, mais próximas de Deus. Mas essa ilusão tem um preço: a solidão do topo, onde ao lado não cabe ninguém, pois todos foram julgados e condenados; onde não se respira o ar da fé cristã, pois não há com quem partilhar a alegria de enxergar o Reino — aliás, esse Reino não existe para quem assim vive.


A teologia da libertação, ao contrário, exige que desçamos do Monte. Que abandonemos a pretensão de superioridade. Que nos reconheçamos necessitados do mesmo perdão que oferecemos. Que aceitemos ser amados não por mérito próprio, mas por graça de Deus. E que, a partir desse amor gratuito, aprendamos a amar como Jesus amou — sem condenar, caminhando junto, transfigurando.


Jesus não condena. Jesus perdoa e caminha junto


Se é verdade que as teologias se enfrentam, é também verdade que Jesus já resolveu a questão. Ele não deixou margem para dúvidas.


Olhemos para ele:


Diante da mulher apanhada em adultério,(como se ela fizesse adultério sozinha) a teologia do domínio (representada pelos doutores da lei) exigia pedras. Jesus não atira nenhuma. Não porque relativize o pecado, mas porque sabe que a condenação não salva ninguém. Ele diz: "Nem eu te condeno. Vai e não peques mais" (Jo 8,11). Perdão que liberta e envia.


Diante dos discípulos que fogem de Jerusalém, a teologia do domínio exigiria punição pela deserção. Jesus, porém, caminha com eles. Ouve seus medos, explica as Escrituras, parte o pão. Não condena a fuga; transforma a fuga em reencontro.


Diante de Pedro, que o nega três vezes, a teologia do domínio exigiria ruptura definitiva. Jesus, porém, ressuscitado, procura Pedro. Pergunta se ele o ama — não pergunta quantas vezes o negou. E confia-lhe suas ovelhas; a partir desse homem, constrói sua Igreja.


Em todos os casos, o mesmo movimento: Jesus não condena. Jesus perdoa e caminha junto.


Esta é a assinatura teológica do Nazareno. Se alguém quer de fato segui-lo, este é o selo de autenticidade de sua missão. Este é o critério para discernir se uma teologia é coerente com a fé. A escolha é sua! As opções são estas! Não há terceira via, nem espaço para o centrão, nem para ficar em cima do muro.


A opção inescapável


A Quaresma, portanto, não é tempo de escolher entre penitências mais ou menos rigorosas. É tempo de escolher entre dois deuses, duas teologias, duas humanidades.


Podemos continuar servindo ao deus do domínio — aquele que separa, condena, exclui. Nesse caso, nossa religião será sempre um peso, um fardo, uma competição. E nosso coração, mesmo religioso, permanecerá desfigurado pela solidão e pelo julgamento.


Podemos, porém, converter-nos ao Deus de Jesus Cristo — o Pai que não condena, o Filho que caminha conosco, o Espírito que transfigura e torna visível sua face aos pecadores. Nesse caso, a Quaresma se tornará travessia. O deserto, escola de liberdade. O monte, antecipação da glória. E a estrada, lugar do encontro. Em nenhum deles há tempo para ficar parado.


Moisés precisou de quarenta anos para aprender que a liberdade não é dominar outros, mas servir a Deus e aos irmãos. Jesus precisou de quarenta dias para nos ensinar que a vitória sobre a tentação não é exibição de poder, mas disponibilidade para o amor. Nós precisamos destes quarenta dias — a Quaresma — para decidir, finalmente, em que teologia queremos viver. É nisso que reside e se resume a proposta das Campanhas da Fraternidade todos os anos, nos últimos sessenta anos, na Igreja Católica Apostólica Romana.


A resposta à pergunta inicial é, pois, inequívoca: a teologia mais coerente com a fé pregada por Jesus é a da libertação.


Não permita que os ignorantes e os que têm má-fé busquem confundir essa proposta, como se fosse uma questão ideológica, reduzindo o Evangelho a programa eleitoral — quem faz isso são os que transformam maus políticos em mito.


A proposta da Teologia da Libertação, trazida por Jesus Cristo, é uma libertação integral: a libertação dos pobres contra a escravidão do dinheiro, que torna este mundo tão desigual (onde 1% dos mais ricos concentra a renda de quase metade do planeta); a libertação do pecado e da morte, do medo e da opressão, da solidão e do julgamento; libertação que leva a humanidade para o amor, a fraternidade e para a vida eterna, que começa aqui.


Jesus não veio fundar uma nova religião de domínio. Veio inaugurar um Reino de serviço. Não veio ensinar como ser melhor que os outros. Veio mostrar como ser melhor para os outros. Não veio condenar o mundo. Veio para que o mundo seja salvo por ele (Jo 3,17).


Esta é a boa notícia. Este é o Evangelho. Esta é a única teologia que merece o nome de cristã.


Que esta Quaresma nos encontre em caminho — não na direção do topo da pirâmide, onde se está sozinho, mas na direção do irmão, onde se aprende, dia após dia, o que significa ser filho amado do Pai. Porque no fim, quando tudo passar, restará apenas uma pergunta:


Em que Deus você acreditou?


E a resposta será julgada não pelas doutrinas que professamos, mas pelas pedras que atiramos — ou com elas construímos abrigos para proteger os mais frágeis.


Por fim, a última resposta será esta:


"Senhor, quando foi que te vimos com fome e te demos de comer? Com sede e te demos de beber?" E o Rei responderá: "Sempre que o fizestes a um destes meus pequeninos irmãos, a mim o fizestes" (Mt 25,37-40).


Não há teologia maior que esta.

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