A Teologia da Libertação (TdL) não surge como um tratado, nascido em alguma academia universitária do mundo europeu, nem como uma elaboração de algum gabinete cardinalício sediado em Roma. Ela nasce dos sofridos subsolos históricos da América Latina: da opressão colonial, da violência das ditaduras, da dependência econômica do capitalismo cruel e da resistência cotidiana dos povos pobres. É impossível compreender a TdL sem olhar para cinco séculos de luta dos indígenas quase dizimados, dos africanos escravizados, das famílias camponesas exploradas. É desta mistura de povos excluídos que brota uma fé inquieta, que não sincretiza religiões, mas delas bebe da sabedoria que aprendeu a ouvir a voz de Deus, não pelos ouvidos, mas pelo coração. Assim, a Teologia da Libertação é fruto das comunidades que transformaram sua dor em consciência, sua fé em organização e sua espiritualidade em rebeldia, pois os senhores podiam maltratar e martirizar seus corpos, mas permanece impossível impedir...
Nestes últimos dias, venho experimentando um sentimento de vazio profundo. Tenho visto pessoas que amo e admiro se comportando de forma idêntica àquelas de quem mantenho distância em razão de suas práticas reacionárias. É muito triste perceber que a ignorância alimenta emoções que deveriam ser contidas pelo simples reconhecimento do não saber. Avaliar o que não conhecemos em profundidade — sem dominar nuances, contextos e contradições — quase sempre nos empurra para julgamentos precipitados. Isso não é novo; trata-se de um risco antigo da humanidade que, em nosso tempo, tornou-se rotina. Falamos com convicção sobre processos que exigiriam silêncio; opinamos com segurança sobre realidades que, se usássemos um mínimo de racionalidade, pediriam escuta; julgamos com dureza aquilo que ainda está em processo de construção. Esse movimento se agrava quando transportamos todas as questões da fé diretamente para o campo da política, como se a experiência religiosa pudesse ser explicada a...
Não se trata de simpatia ou antipatia política por Nicolás Maduro. Não se trata de concordar ou discordar de governos, sejam eles da América Latina, da Ásia, da África, da Europa ou da América do Norte. Muito menos de afinidade ideológica, seja ela qual for. O que está em jogo é algo muito mais elementar: soberania nacional e autodeterminação dos povos. Aceitar como “normal” que um país invada outro, realize operação militar em território estrangeiro, sequestre um presidente no exercício do cargo, anuncie que passará a administrar as riquezas desse país e ainda tente vender tudo isso como “defesa da democracia” é romper com qualquer noção mínima de ordem internacional. Se isso é aceitável, então nenhum país é soberano. Todos passam a viver sob tutela de quem tem mais armas, mais dinheiro ou mais poder midiático. A contradição moral é evidente e escancara o autoritarismo: afirma-se que um presidente é um ditador e, sob essa justificativa, impõe-se de fora para dentro um...
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