A TIRANIA DA CERTEZA ENTRE O MISTÉRIO DA FÉ E A PRESSA DO JULGAMENTO
Nestes últimos dias, venho experimentando um sentimento de vazio profundo. Tenho visto pessoas que amo e admiro se comportando de forma idêntica àquelas de quem mantenho distância em razão de suas práticas reacionárias.
É muito triste perceber que a ignorância alimenta emoções que deveriam ser contidas pelo simples reconhecimento do não saber. Avaliar o que não conhecemos em profundidade — sem dominar nuances, contextos e contradições — quase sempre nos empurra para julgamentos precipitados. Isso não é novo; trata-se de um risco antigo da humanidade que, em nosso tempo, tornou-se rotina.
Falamos com convicção sobre processos que exigiriam silêncio; opinamos com segurança sobre realidades que, se usássemos um mínimo de racionalidade, pediriam escuta; julgamos com dureza aquilo que ainda está em processo de construção.
Esse movimento se agrava quando transportamos todas as questões da fé diretamente para o campo da política, como se a experiência religiosa pudesse ser explicada apenas pelos critérios da disputa humana. Acabamos replicando exatamente aquilo que criticamos naqueles que usam a fé como instrumento de poder e dominação.
Ao fazer isso, o transcendente desaparece do horizonte. Já não olhamos para o mistério, mas apenas para os mecanismos: alianças, estratégias, narrativas e disputas de poder. Olhando de perto, vejo que não é diferente do modelo que tanto dizemos rejeitar. De longe, não há distinção entre o que criticamos e o que estamos fazendo.
O senso comum, então, assume o lugar do discernimento e passa a decretar como definitivo o que é passageiro, e como absoluto o que é circunstancial. Nossas certezas impedem que ouçamos nossas próprias consciências. Mais importante do que a reflexão parece ser o ato de julgar e tornar público o veredicto, para não perdermos a chance de receber um "clique" a mais em nossas redes sociais.
É nesse terreno que floresce a tirania da certeza. Ela não tem coloração: é sempre cinza, seja de direita ou de esquerda.
Ontem à noite, fiquei olhando para o céu; estava nublado e ameaçava chover. Eu estava triste. Existe uma rima silenciosa entre as estruturas que sustentam o universo e a força que move o coração humano — ambos compartilham a mesma natureza: são vastos, complexos e, em última instância, insondáveis. Assim como aquele céu nublado e meu coração atribulado.
Fomos arremessados em uma era que não tolera o mistério; não há espaço para a contemplação. Tudo precisa ser explicado, classificado, julgado e sentenciado com rapidez. O que não cabe em uma resposta curta torna-se suspeito.
A internet, que surgiu sob a promessa de democratização total do conhecimento, nivelou o terreno e nos traiu. No grande palco das redes sociais, a luz que prometia disseminar o saber ofereceu a mesma condição de fala ao sábio e ao ignorante. Aqui se revela uma ironia cruel: enquanto a sabedoria é silenciosa e exige tempo, a ignorância é ruidosa, simples e imediatamente palatável. O ignorante oferece o conforto das respostas prontas, enquanto o sábio oferece o desconforto das perguntas necessárias — quase sempre sem respostas.
Vivemos o paradoxo da informação. O conhecimento nunca esteve tão acessível, ao passo que a compreensão nunca pareceu tão distante. Assistimos a uma competição desleal. De um lado, o sábio caminha carregando o peso de suas dúvidas, consciente de que, quanto mais descobre, mais percebe o que ainda desconhece. Do outro, o imbecil desfila o orgulho de sua própria limitação, blindado por uma autoconfiança que o conhecimento genuíno jamais permitiria ter.
Nesse embate, o sábio já entra derrotado. Não por falta de argumentos, mas porque lhe falta o apetite pela certeza absoluta — esse vício que o ignorante possui em abundância. No tribunal das redes sociais, a dúvida é interpretada como fraqueza e a prudência como omissão, enquanto o orgulho da estupidez é celebrado. É como tentar comer mel com uma colher no meio de uma colmeia de abelhas.
Quando essa lógica invade o campo da fé, o estrago é ainda maior. O mistério de Deus é reduzido a slogans; o Evangelho, a instrumento de disputa; o discernimento, a torcida organizada. A fé, que deveria nos tornar mais humildes diante da complexidade da vida, passa a ser usada para legitimar condenações rápidas e julgamentos definitivos.
Fui deitar compreendendo que a fé cristã não nasce da pressa; ela nasce da escuta. Como nos lembra o Apóstolo Paulo, agora vemos como por um espelho, de forma confusa, pois a clareza plena ainda está por vir. Por isso, o Evangelho sempre será um incômodo em tempos dominados pela tirania da certeza: ele não oferece respostas fáceis, não autoriza julgamentos apressados e jamais elimina o mistério.
Onde tudo vira opinião, a fé chama ao discernimento. Onde tudo vira certeza, o Evangelho chama à humildade. E onde o senso comum decreta sentenças, a experiência cristã insiste no caminho, no processo e na conversão.
Diante disso, peço a Deus que me dê a humildade necessária para saber o momento certo de falar e que, ao fazê-lo, liberte-me da tentação de julgar sem antes conhecer. E que, ao conhecer, eu possa perdoar, olhar com misericórdia e ser sinal de esperança
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