A EXTREMA DIREITA E O TSUNAMI RELIGIOSO QUE SE AVIZINHA
Há um perigo real, concreto e iminente se formando diante de nós — e o mais grave é que ele não chega de surpresa.
Ele vem sendo anunciado há anos. Ainda assim, a esquerda brasileira, e o PT em particular, seguem mergulhados numa perigosa letargia quando o assunto é a questão religiosa. Essa negligência não é abstrata: ela já cobra preço político e cobrará ainda mais caro nas eleições de 2026.
Não se trata de alarmismo. Trata-se de leitura da realidade. O que enfrentaremos em 2026 será um tsunami religioso maior, mais organizado e mais agressivo do que aquele visto nas últimas três ou quatro eleições.
Diferentemente do que muitos ainda insistem em acreditar, esse movimento não é espontâneo, não nasce apenas de redes sociais e não é fruto de desorganização popular. Ele é planejado, financiado, treinado e executado com método, inclusive com apoio internacional.
Os deputados federais da extrema direita estão preparados financeiramente para flertar abertamente com o fascismo. As emendas parlamentares, somente nos últimos quatro anos, alcançaram valores em torno de 240 milhões de reais por deputado. Isso criou uma base material sólida para uma ofensiva ideológica, política e religiosa sem precedentes.
Isso significa que essa gente está remunerada para nos atacar, para espalhar o discurso do ódio, do autoritarismo e do fascismo, com plenas condições de negociar o futuro político e financeiro do país com outros milhões e milhões de reais.
Se fizermos o cálculo do passado recente — os últimos quatro anos — somado à projeção de mais quatro anos, cada deputado da extrema direita, especialmente da bancada evangélica reacionária, terá algo próximo de meio bilhão de reais para, digamos assim, “administrar”.
Os entendedores, entenderão.
Recentemente, estive em Salvador participando do Encontro Nacional do MST. Por coincidência — ou talvez por um sinal claro dos tempos — fiquei hospedado em um hotel onde ocorria simultaneamente um congresso da Igreja Batista. Não era um encontro qualquer.
Tratava-se de uma atividade vinculada diretamente à Igreja Batista do Texas, uma instituição ultra conservadora, alinhada ao trumpismo e à extrema direita norte-americana.
Ali, diante dos meus olhos, ficou evidente o que muitos se recusam a enxergar: há uma articulação internacional em curso para intervir no campo religioso brasileiro com foco direto nas eleições de 2026, especialmente no interior do país.
Enquanto isso, nós seguimos dispersos. Gastamos energia — legítima, é verdade — com indignações que mobilizam emoções, mas que não alteram a estrutura política que nos oprime neste momento histórico. Nos preocupamos com a violência do ICE em Minneapolis, e com razão.
Denunciamos a tragédia humanitária em Gaza, o que diz muito sobre nossa identidade ética.
Nos comovemos com a brutalidade contra um cachorro, e isso não é irrelevante. Mas é preciso perguntar com honestidade: quanto tempo, prioridade política e organização estamos dedicando às disputas que nos afetam diretamente aqui, agora, neste território?
Enquanto navegamos entre múltiplos caldos emocionais, a extrema direita religiosa está anos-luz à nossa frente na organização do processo eleitoral no campo da fé. Não é força de expressão. É constatação.
A esquerda brasileira ainda não compreendeu — ou se recusa a compreender — que a disputa central de 2026 passa necessariamente pela questão religiosa. Tenho afirmado isso há muitos anos e, desde as eleições de 2022, repito de forma insistente: 2026 será a mãe de todas as batalhas no terreno da fé e da política. Muitas vezes me sinto pregando no deserto.
O problema não é falta de alertas. O problema é que esses alertas não chegam ao centro da organização partidária, não se transformam em prioridade política, não geram estrutura, estratégia, formação nem investimento continuado. A religião segue sendo tratada como tema secundário, quase constrangedor, lembrado apenas às vésperas das eleições.
Essa distância histórica da esquerda em relação ao fenômeno religioso não é neutra. Ela já produziu os monstros que hoje enfrentamos. O que vivemos agora é consequência direta dessa omissão prolongada.
E é preciso dizer com todas as letras: não se trata de criar grupos de WhatsApp, nem de improvisações de última hora, nem de convocar “especialistas” que aparecem às vésperas da eleição com tarefas mirabolantes para os outros cumprirem — muitos deles sem colocar os pés numa igreja desde o próprio batismo.
Trata-se de organização política séria, com prioridade real, que respeite quem vive a fé no cotidiano, que dialogue com comunidades, igrejas, pastorais, territórios e lideranças religiosas populares.
Não podemos continuar aceitando que aventureiros de ocasião queiram dizer às pessoas de fé o que elas devem pensar, sentir ou votar. Isso é arrogância política e desprezo cultural.
O mais grave é que, enquanto nós patinamos, setores da extrema direita internacional já atuam abertamente no Brasil. A presença da Igreja Batista do Texas em Salvador, realizando treinamentos políticos e religiosos em solo brasileiro, não é episódio isolado.
É parte de uma estratégia maior de ocupação do imaginário religioso e da organização eleitoral no país. É disso que se trata. Não é teoria da conspiração. É prática concreta.
O terremoto já começou. Os alertas estão dados. Mas a esquerda segue na beira da praia, tomando chope, bebendo caipirinha, comendo batata frita e repetindo que “o mar está lindo”.
Não está.
Se nada for feito, o tsunami não apenas chegará — ele nos atropelará. E depois será tarde para dizer que não fomos avisados.
Este artigo é mais um apelo, mais um grito, mais uma tentativa de romper o silêncio confortável que nos paralisa. Quem vive a fé como compromisso com os pobres, com a justiça e com a democracia sabe: neutralidade, neste momento histórico, não é opção.
Que ninguém diga, amanhã, que não houve quem alertasse.
Toninho Kalunga
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