PÁSCOA: A RESSURREIÇÃO COMO PRÁTICA DE LIBERTAÇÃO
Por: Toninho Kalunga*
Neste Domingo de Páscoa, uma pergunta insiste em inquietar todos e todas que têm mais dúvidas do que certezas: se, no mundo, somos tantos a dizer que seguimos Jesus Cristo, por que as guerras, a desigualdade econômica, a violência contra os pobres e a exclusão continuam organizando o mundo?
Penso que a resposta não é confortável. Talvez estejamos celebrando uma Páscoa sem compromisso e vivendo um Batismo sem conversão real.
A Páscoa não é apenas uma festa litúrgica; ela é um confronto aberto contra a lógica de todos os sistemas de dominação.
A Páscoa é a vitória de um homem chamado Jesus Cristo — que foi derrotado, crucificado e morto — contra o sistema religioso judaico, contra os poderosos romanos e contra os endinheirados de então, que, ao ressuscitar, tem como prêmio a condição de oferecer aos desprezados, aos deserdados, aos esquecidos da vida, a possibilidade de terem a palavra final sobre tudo aquilo que produz morte.
Além disso, a Páscoa é também denúncia nos dias de hoje: denúncia de estruturas e escolhas que continuam crucificando os de sempre. Ressuscitar com Cristo exige, antes, a coragem de morrer para a indiferença de um sistema econômico perverso que maltrata e exclui e para uma religião que se cala diante desta miríade de injustiças.
*O Batismo: Da Escravidão à Luta:*
Renovar o Batismo na Vigília Pascal não é apenas repetir um rito; é reeditar anualmente a mesma travessia. É passar da lógica da dominação para a lógica do Reino; é sair da escravidão para a liberdade.
Não fomos batizados para fugir do mundo, mas para sermos enviados ao coração da história. O Batismo nos convoca a renascer para uma vida encarnada nas dores e nas lutas do povo.
Em Cristo, renascer não é escapar da realidade; é voltar a ela com outro posicionamento: o da Graça, que não é privilégio, mas responsabilidade.
Amar como Jesus:
*Um Amor que Transforma:*
O desafio cristão não é amar de qualquer jeito. O Evangelho propõe o caminho de Jesus: um amor que não é apenas afetivo, é efetivo. É um amor que toma partido dos empobrecidos, denuncia as estruturas que geram fome e se recusa a aceitar a desigualdade como _"vontade de Deus"._
Amar como Jesus amou é assumir que a fé tem consequências e que não existe neutralidade possível diante da opressão.
*Ser Luz — e Não Cúmplice*
O batizado é chamado a ser luz, mas não uma luz que enfeita altares. É uma luz que revela o que está escondido e, por isso, incomoda os poderosos.
Ser luz é recusar a cumplicidade com um sistema que descarta vidas em nome do lucro. Ser cristão de verdade é escolher não se adaptar ao mundo como ele está, mas agir para transformá-lo.
*A Ressurreição como Prática de Libertação*
A Ressurreição não é um evento do passado; é uma força histórica, baseada em um fato real e extraordinário na história da humanidade! O projeto de Jesus foi interrompido pela cruz dos poderosos, mas confirmado pelo Pai na manhã de hoje.
Esse projeto continua nas mãos de quem se recusa a aceitar a "paz dos cemitérios", que, como canta a bela canção, _"pois paz sem voz, não é paz, é medo"._
O Cristo Ressuscitado não está encerrado em uma gruta de Jerusalém, nem em algum túmulo de mármore; Ele caminha à nossa frente na Galileia das nossas periferias, nos acampamentos dos sem-terra, nas ocupações e favelas e em cada gesto de resistência popular.
Hoje, reafirmamos que nossa fé é memória subversiva que não esquece os crucificados da história. Por isso, fazemos memória dos nossos e nossas mártires e repetimos o que diz Paulo Apóstolo em Romanos 6,8: _"Se, pois, morremos com Cristo, cremos que também viveremos com ele."_
Que a alegria desta manhã não seja um anestésico, mas o combustível para as lutas. A pedra foi removida! A morte não tem a última palavra. Que a luz do Ressuscitado ilumine nossa caminhada na construção da sonhada Pátria Grande, livre de toda opressão, onde a terra, o teto e o trabalho sejam direitos sagrados e a paz seja fruto da partilha.
Assim se cumprirá a profecia da Oração do Pai-Nosso, para que: "seja feita a Vossa vontade, assim na Terra como no céu".
Cristo Ressuscitou! Ele vive em cada um de nós que luta pela libertação!
Páscoa é passagem do eu para o nós, do conformismo para o compromisso!
Feliz Páscoa
Do seu irmão de fé no Ressuscitado de Nazaré, Jesus Cristo!
*Toninho Kalunga* _é membro da Fraternidade Charles de Foucauld, participa da Paróquia Santo Antônio, na Granja Viana, no Santuário São Luís Orione, o Pequeno Cotolengo Paulista._
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